Rumo ao corte de cana, centenas de jovens deixaram Araçuaí no inicio da semana.

04/10/2011 22:40

Sérgio Vasconcelos

Repòrter

 

Fotos: Josiel Alves

Cerca de 200 jovens sairam de Araçuaí na ultima  segunda-feira ( 03/10 ) para o corte de cana em São Paulo

 

Araçuaí presenciou  na última segunda-feira ( 3/10) uma cena que se tornou rotina, porém, vergonhosa. Centenas de jovens – a maioria da zona rural- partindo para o corte de cana em São Paulo. Com idades que variam de 18 a 40 anos, eles deixam  para trás, família, amigos, mulheres, filhos, namoradas. Levam  na bagagem o sonho de  ganhar dinheiro, comprar uma moto, um som,  construir uma casa e pagar as dívidas. No corte de cana, é comum um trabalhador ganhar de R$ 700 a mil reais por mês, contra as diárias de R$ 10 a R$ 20 reais na região. Para os migrantes, separados de suas famílias por mais de mil quilômetros, em nome de um “ salário gordo”, a palavra de ordem é “ correr sem parar, entre as fileiras de cana, já que ganham por produção.

“ Vamos à procura de uma coisa melhor, porque a região não oferece nada”, disse em coro, um grupo de jovens que aguardava  na praça das Rosas, em Araçuaí,a partida dos ônibus. Muitos chegaram pela manhã. Vários não tinham sequer almoçado até as 14 horas e a maioria não sabia ao certo o destino do grupo. “ Para onde vamos não sabemos. Mas o que vamos encontrar eu sei: muito trabalho pesado”, disse  Cleomar Rodrigues, 21 anos, natural de Salinas. “ Bom seria ficar por aqui mas, fazer o que?”, conforma-se o rapaz. “ Acho que vamos para uma cidade perto de Campinas”, arriscava um palpite, Josuelto Dutra, 24 anos, da região do Piauí, zona rural de Araçuaí.. “ Vou sentir saudades do meu filhinho de 3 anos”, disse ele. “ Esta é a terceira vez que estou indo pro corte. Tou deixando pra trás, dois filhos pequenos e minha esposa”, contou Leandro Gomes da Silva, 28 anos, também da zona rural de Araçuaí. “ Vou ganhar um dinheiro para pagar as dívidas e voltar”, garantia o trabalhador.

Cinco ônibus saíram de Araçuaí, levando os trabalhadores para as usinas de Pitangueiras,Tatuí,Piracicaba, Sertãozinho e região. “ Quem não tem estudo direito, sofre”, resumiu Altemar Franca  de Sousa, 36 anos,natural de Araçuaí, contando que em busca de emprego, já passou por usinas de Mato Grosso e São Paulo. Hoje ele é agenciador, mais conhecido por “ gato “, responsável pela seleção dos trabalhadores. “ Essa turma agora é da entressafra. Vai ficar só três meses”, disse ele.

 

Mão de obra barata

ENTRESSAFRA-Os cortadores de cana viajaram em 5 ônibus. Eles permanecerão por 3 meses nas usinas sucroalcooleiras de São Paulo

 

Com base em pesquisa do Serviço Pastoral dos Migrantes de São Paulo, ligado à Igreja Católica, a Diocese de Araçuaí estimou em quase 37 mil o número de trabalhadores de 17 municípios de sua jurisdição emigrados para o corte de cana em São Paulo, no ano passado. A soma representa mais de 10% da população total dessas cidades que totalizam uma média de 260 mil habitantes.

O Vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, é o principal fornecedor de cortadores de cana para as usinas paulistas. Para se ter uma idéia, em 2004 quase 5 mil trabalhadores saíram do município de Berilo para os canaviais paulistas. O município possui pouco mais de 13 mil habitantes.

As usinas do interior de São Paulo preferem contratar trabalhadores temporários para o corte manual de cana-de açúcar do que investir em equipamentos modernos. Os cortadores de cana são preferidos pelo baixo valor do salário e pelo alto rendimento. Muitos se tornam verdadeiros atletas dos canaviais, já que ganham por produção. Andar, abaixar, golpear e abraçar a cana para amontoá-la em vários feixes. Esta é a dura rotina de um bóia-fria dos canaviais, além da baixa remuneração e as precárias condições de trabalho.

 

Em 2005, a Relatoria Nacional para o Direito Humano ao Trabalho, com apoio da Organização para as Nações Unidas (ONU)e do Ministério Público Federal, divulgou um relatório sobre as condições de trabalho nos canaviais paulistas. O estudo, baseado em visitas a canaviais e alojamentos das usinas, foi uma reação à morte de oito cortadores de cana em São Paulo, entre 2004 e 2005. Cinco dos mortos  eram migrantes temporários de municípios do Vale do Jequitinhonha. Os outros eram nordestinos. O relatório atribuiu as mortes, precedidas de paradas cardíacas, ao excesso de esforço físico sob o sol forte, em curto espaço de tempo, devido ao corre corre nas “ ruas dos canaviais”.

 

Vida na ponta do podão

Residente em Araçuai,Rodrigo Carvalho Xavier, 23 anos,  tem o sonho de trabalhar em informática, porém, a falta de oportunidades o empurrou para o corte de cana.

 

O sonho de Rodrigo Carvalho Xavier, 23 anos, morador do bairro Santa Tereza em Araçuaí era trabalhar com informática.. Com segundo grau completo, ele não tinha na tarde de segunda-feira, certeza absoluta do lugar onde trabalhará, nem o nome da empresa. “ Acho que a empresa chama  Vila Velha, na cidade de Mirandópolis, interior de São Paulo. Eu não queria sair da minha cidade, porque aqui é que mora minha família, meus amigos.”, contava o jovem, reclamando que a maioria das empresas pede experiência e isso dificulta a vida de quem está começando”, analisa o jovem. “ Por isso o pessoal vai para o corte de cana.

Uma lei estadual de 2006, que previa para aquele ano, o fim da queima de cana, por razões ambientais, foi modificada por outra, após pressão política de usineiros. A nova lei prevê uma suave redução das áreas da queima de cana até a extinção em 2031. No entanto, a partir de 2014 , com a intensificação da mecanização, muitas empresas já não vão mais contratar cortadores de cana.

“ È preciso criar alternativas e condições de trabalho para receber estes milhares de nossos irmãos do Vale que ficarão desempregados. Caso contrário haverá um caos social sem precedentes na região” , alerta o médico Aécio Jardim, prefeito de Araçuaí e presidente da Associação dos Municípios do Vale do Jequitinhonha.