História dos tamborzeiros do Rosário de Araçuaí em Medina

26/08/2011 21:59

Há 30 anos mais ou menos,  o prefeito da cidade de Medina foi convidado por alguns araçuaienses que moram na cidade a serviço da Copasa para assistir as comemorações da Festa do Rosário . O  prefeito veio com muito interesse, pois já tinha ouvido muitas histórias que a festa era uma maravilha. De fato. O prefeito e família ficaram encantados. Ele gostou tanto que ofereceu a cidade de Medina por um dia aos tamborzeiros.Não precisava demonstração do rei e rainha nem juízes, mais sim, só dos tamborzeiros.  Foram eles que chamaram a atenção do prefeito. Ficou marcado a data da apresentação: 13 de dezembro, dia  dia consagrado a Santa Luzia, santa de devoção do Prefeito  Ficou tudo combinado. O  prefeito foi pra sua cidade muito alegre. Chegando lá avisou seus auxiliares que espalharam o comentário por toda a cidade. O João Lolôsca, filho de Felisbino Sapateiro era na época o presidente da Irmandade do Rosário, e o João Mocó era o capitão do tambor. Os dois com alguns membros da irmandade, como Pedro de Meia, Luiz de Meia, Luiz Sapateiro, Nilton Curió e outros; fizeram uma reunião pra estabelecer o procedimento dos tamborzeiros. Numa cidade diferente que o povo nem o prefeito sabem que todos têm apelidos, iriam estranhar quando estivessem tomando todas.  Começariam a chamar Zé de Meia de Zé Cuão, Antônio de Zilá de  Tono Cú  Sujo, João Evangelista de João Mocó, Zé Lopes de Tó Bufão e outros mais. Foi estabelecido umas normas, como por exemplo, chamar todos pelo nome correto, e Ave Maria de beber pinga na hora do tambor. E assim as normas foram passadas para os tamborzeiros que acataram com toda prontidão, mas exigiram que depois que terminasse o Tambor iriam beber e comer até morrer. Deram as mãos e negócio fechado.
Chegado o dia combinado o prefeito mandou um ônibus apanhar os tamborzeiros. Começou a arrumação para a viagem que foi rápido, mas também não faltou alguns penetras,  porém, os organizadores não importaram porque os penetras geralmente cobrem a falta dos que embebedam.
Chegando à cidade de Medina foram bem recebidos pelo povão.  Os tamborzeiros foram para o alojamento em uma escola e sem tambor nem gole, jantaram e foram dormir.   No outro dia, o dia da festa, tinham muito que fazer.
Acordaram cedo e,  foram arrumando a casa.  João Evangelista,  mais conhecido por João Mocó, foi dizendo:  cambada vamos ensaiar pra gente “ mostrá” que somos bons!. O ensaio começou.  Minutos depois, o pátio estava cheio de curiosos. tamborzeiro não gosta de exibir nem um pouco, isso para não falar o contrário. No ensaio fizeram até a demonstração da cobra que era feito pelo tamborzeiro Capiano. Foram  muito aplaudidos. Deram até autógrafos, mas, sem tomar nem um gole. Àquela altura  já tinha muitos reclamando da falta do “ me”.  Tudo bem.  Tinham feito compromisso, e,  palavra de tamborzeiro não volta atrás.
Chegando então à hora marcada o ginásio já estava lotado: o  Prefeito e família, vereadores, o padre da cidade, delegado, enfim , quase todas as autoridades da cidade.
Agora o momento culminante: os tamborzeiros  foram para o centro do pátio da escola. Fizeram a roda. João Evangelista fez a oração  e começou o ronco dos tambores e as cantigas.  Nos primeiros minutos,  muita euforia. Depois,  foi enfraquecendo e com 10 minutos parou. Todos colocando a alma para fora, perdendo o fôlego.  João Almeida, ou João Lolosca que era o presidente, foi logo chegando à roda e exclamou:  gente, gente!  o que aconteceu !Desse jeito vocês me matam de vergonha!  A parada do tambor tem de ser no mínimo de meia hora.  Anda!  Vamos começar que o povão já esta reclamando.  E começou novamente, mas,  bem devagar.  E parou  de novo , com menos tempo.   Tamborzeiro  é assim:  um colocando culpa no outro.  E começaram  as rugas.  João Almeida chamou o pessoal do tambor e disse:  gente!  Será que não ta  faltando uma pinguinha? Todos tamborzeiros bateram palmas e gritaram: é isso mesmo Seu João,  que chegou ao p refeito e deu o toque.  Logo  apareceu cinco litros da boa.  E  foi só alegria. Um  gole daqui outro dali e o pau quebrou.  Foi tamborzeiro equilibrando o litro cheio de pinga na cabeça,  deitava e pulava com o litro e por ai afora.... Quando deram uma parada o  suor estava caindo por toda parte, mas também foi  uma hora sem parar.  O João Almeida comentou para o prefeito:  sem o  “ me “  eles não tocam. De repente João Evangelista gritou: Cambada,  vamos começar.  E  perguntou bem alto :  Zé Cuão cadê To Bufão? Zé Cuão respondeu :Tó  Bufão saiu com Antônio Cú Sujo e Antônio Cafubira, disseram que iam ao boteco comprar um  “ paieiro”.  João Mocó ordenou, Zé Cuão a chamar Zé Cobra  para trazer  todo mundo.  Zé Cobra retrucou: João Mocó,  eu não vou.  porque esses tamborzeiros  são muito pirracentos.  Manda Adilson Capeta e To Barriola que não vou não. E o povo caiu na risada juntamente com o prefeito, porque nunca tinham ouvido tantos apelidos engraçados.  E foi só festa a noite toda e o povo começou a chamar os tamborzeiros pelos seus apelidos.    Parabenizando todos os tamborzeiros, o prefeito disse que nunca tinha visto uma festa tão animada e engraçada .

 

Naka e Zé Cobra